Projeto AMIGOS

Somos um grupo de voluntários com o propósito de reunir pessoas envolvidas com a obra missionária, visando à promoção de ações sociais.

A sexualidade é um rio profundo

em 18 de agosto de 2016

Desde os tempos bíblicos, o amor e a sexualidade são comparados às águas: “Seja bendita a sua fonte! Alegre-se com a esposa da sua juventude” (Pv 5.18). A metáfora do amor e da sexualidade como um rio é rica em imagens e associações. Todo ser humano tem uma trajetória, uma história de desenvolvimento de sua sexualidade. Assim como um rio, as águas de uma nascente se tornam um percurso com encontros, poluição e confluências.

Em primeiro lugar, a nascente é formada a partir de água limpa. Diz um poeta que “o rio corre porque nasce limpo”. Assim como a nascente advém de água boa, nossa sexualidade tem sua origem em Deus, a fonte de toda bondade e corporeidade. E viu Deus que a matéria era boa, que o corpo era bom, assim como um rio nasce bom, de água limpa. A sexualidade não é fruto da queda humana, mas da imagem de Deus no ser humano.

Assim como a sexualidade humana, o rio também recebe em sua trajetória diferentes tipos de poluição, basicamente três: difusa, industrial e sanitária. Na poluição difusa, não se sabe ao certo qual o problema, mas ele está presente. Uma possível associação com a sexualidade é o pecado original na natureza e que a corrompe. Não sabemos ao certo como o pecado herdado chega até nós, apesar de teólogos desde Santo Agostinho tentarem traçar sua origem. O pecado está entre nós, dentro de nós e é transmitido à raça humana, assim como a poluição difusa de um rio.

Outra possível poluição fluvial é a industrial. Assim como as indústrias poluem as águas, lançando resíduos no rio, o sistema em que vivemos hoje é prejudicial à integração da sexualidade. Vivemos em uma cultura na qual tanto o rio quanto a sexualidade humana sofrem os danos de uma sociedade de consumo. Quanto à sexualidade, ela se expressa em uma ideologia antirrelacional: a de que possuímos nosso corpo, que se torna uma “commodity”, um produto, que utilizamos para nossa “liberdade”. Dá-se vazão a uma moralidade baseada apenas no consentimento, mas não no vínculo. Diz-se: “Se dois querem, por que não?”. Formamos indivíduos com uma estreita concepção de liberdade e felicidade, dotada de contornos individualistas e narcísicos. Assim como o corpo d’água sofre com a indústria e seus resíduos, o corpo humano sofre com a consequente desintegração relacional. Contrariamente, na visão cristã, a dinâmica do amor é a graça de não pertencer a mim mesmo, mas entregar o corpo em amor sacrificial. O meu corpo é para a doação, pertence a alguém, a Deus e ao meu cônjuge: expressa uma “existência entregue”. Este posicionamento de entrega em uma sociedade de relacionamentos fugazes torna-se contracultural e, por isso mesmo, mais necessário.

A terceira forma de poluição de um rio é a sanitária, advinda do esgoto doméstico. Ela causa um fenômeno fatal: a eutrofização, ou rio “bem nutrido”. Paradoxalmente, a demasia de nutrientes faz mal ao rio. O excesso de nutrientes diminui a aeração, o oxigênio, causando a morte de peixes. De igual forma, vemos hoje na sociedade brasileira um excesso de atenção ao sexo: trata-se de idolatria sexual, que desloca o foco da relação para o desempenho. O vínculo é substituído pelos orgasmos múltiplos. Há muita oferta de sexo, mas pouca doação. O prazer sexual torna-se o motor, não a consequência do amor. Além do deslocamento do afeto para a performance, há também uma hiperexposição sexual que adoece os mais vulneráveis, os humanos em formação. Assim como os peixes mais sensíveis morrem por excesso de nutrientes, a infância tem sido ameaçada diante do excesso de exposição.

Uma última associação é a possibilidade de autodepuração do rio. É a capacidade de um meio aquático recuperar-se após receber uma descarga de poluentes, é a restauração de um corpo d’água. Existe esperança para um rio poluído. Como o curso do rio, a sexualidade humana também pode depurar-se, purificar-se pela ação do Espírito Santo. É vida dentro de nós, nos chamando à beleza, à bondade e à verdade. Mas, assim como é um processo demorado de cuidado do rio, na depuração humana é necessária atenção à experiência, precisa-se de confissão e do encontro com aqueles peixes que, mesmo já contaminados, ainda esperam um novo rio.

Finalmente, o encontro do rio com o mar. Assim como na foz há uma “re-união” de águas, o termo sexo vem do latim, “secare”, “aquilo que deseja ser reunido”. A sexualidade e as águas fluviais têm uma direção à integração. Esperamos que os rios poluídos se transformem em encontros de águas, em uma bela foz, que jorram para uma vida que se torna fonte de esperança para outros.

No dia que escrevo este texto, Aline e eu completamos aniversário de casamento. Como espelho embaçado, queremos reconhecer o amor, o amante e o amado, a presença da Trindade santa que sustenta frágeis iniciativas de amor humano. Nas palavras de Adélia Prado: “O silêncio de quando nos vimos a primeira vez atravessa […] como um rio profundo”.

• Davi Chang Ribeiro Lin é pastor na Comunidade Evangélica do Castelo, em Belo Horizonte, MG. É psicólogo clínico, mestre em teologia pelo Regent College (Canadá) e doutorando em teologia (FAJE). Fonte: Revista Ultimato

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