Quem você chama em caso de urgência?

Na infinidade de formulários que preenchemos durante a vida, nos deparamos frequentemente com a frase: “Em caso de urgência, favor ligar para…”. De quem é o contato que você escreve lá?

Associamos, de maneira intencional ou não, o fato de reconhecer nossa fragilidade, dependência e necessidade de ajuda com a palavra “urgência”. Para ser mais exata: um socorro depois que o caldo já entornou. Quando sentimos que chegamos a um limite, pensamos em pessoas que nos ajudem a lidar com a consequência do que já nos afetou. De que limite estamos falando? A vida nos apresenta uma dança veloz entre momentos de autonomia e a dependência.

Estamos cada vez mais anestesiados e desatentos aos sinais que precedem o que consideramos “trágico e urgente”. Cada vez mais independentes, solitários, autossuficientes e distraídos. Sim, existem coisas que nos atropelam e interpelam e não nos permitem tempo de respirar ou opção de escolher. O que chamamos de tragédia ou fatalidade. Mas a maioria das questões da vida cotidiana são processos. Passo a passo, caminhamos em determinadas direções. E são muitos os sinais pelo caminho.

Sugiro, então, que se não andarmos sozinhos muito do impacto destas situações pode ser amenizado, porque estaremos juntos, atentos a alguns dos sinais e movimentos dos nossos corações. Desta maneira, nos permitimos espaço para transformações necessárias e crescimento, o que torna a jornada mais bonita e mais leve.

Relacionamentos necessitam de humildade, amor, perdão e compromisso (dentre muitas outras coisas). E compromisso implica dedicação, intencionalidade e um grau de responsabilidade. Portanto, se você vai continuar lendo esse texto, entenda o seguinte: sim, a vida de quem você ama e com quem você se relaciona tem a ver com a sua vida. Temos vivido à sombra do “cada um com seus problemas”, “ele faz o que quer da vida dele”, “o que eu faço não interessa a ninguém”. Se você se propõe a ser um discípulo de Jesus Cristo, sabe que não é assim que ele compreende as relações. O Cristianismo é um chamado amoroso à amizade. Com Deus. Uns com os outros.

Quando você assume o compromisso de caminhar com alguém – além de companhia para os bons momentos e identificação nas afinidades –, cabe sim a você amar e cuidar, inclusive, através do alerta quanto aos perigos do caminho e como coadjuvante no processo de cura das feridas.

Há limites no nosso cuidado e amor. Existe uma dimensão profunda da nossa vida que diz respeito a nós e Deus. Um nível de profundidade no qual só Deus pode intervir e interferir. Mas percebo que um dos pecados da nossa geração é a omissão. Nos esquecemos de que Deus nos deu de presente pessoas para encarnar uma dimensão do Seu amor por nós. Deus nos coloca perto uns dos outros, nos permite construir amizades espirituais, também como meio de Graça, cuidado e crescimento. “Como o ferro afia o ferro, um amigo afia o outro” (Provérbios 27:17). Somos desafiados, crescemos e amadurecemos juntos.

Temos dificuldade em lidar com nossas próprias fragilidades e erros e também em abordar estas questões com os outros. Geralmente seguimos o caminho oposto da orientação bíblica: “Façam disso uma prática comum: confessem seus pecados uns aos outros e orem uns pelos outros, para que vocês possam viver juntos, integrados e curados” (Tiago 5:16). Temos facilidade em apontar os erros dos outros e desviar os olhos dos nossos próprios equívocos, quando Deus já nos ensinou muito do caminho processo da cura e restauração. Humildade, quebrantamento, confissão, oração, recomeços e transformações. No modelo da interdependência da Trindade, em comunhão e na ação do Espírito Santo, somos tratados, curados e restaurados.

Segundo Eugene Peterson, a amizade espiritual tem sido um dos aspectos da espiritualidade que tem sido mais negligenciadas e subestimadas na vida da comunidade cristã, mas que é sacramental como o uso de água, vinho e pão, uma vez que “toma o que é comum na experiência humana e se transforma em algo sagrado”1.

Fomos criados para a interdependência. Existe uma ligação estreita entre o nosso aprendizado e crescimento e a forma como desenvolvemos relacionamentos. A epistemologia de uma aliança é caracterizada pelo fato de que “conhecer com” ou “na presença de” é algo essencial para a aprendizagem e conhecimento na vida humana. Uma vez que observamos todas as experiências formativas em nossas vidas, percebemos que as nossas experiências e encontros com a realidade são mediadas e interpretadas neste contexto de relacionamento, ou seja, na presença de outro.

Amizade espiritual é uma das práticas reconhecidas como um meio de Graça de Deus para nós em que compartilharmos e aprendemos na presença de outro. A perspectiva de um amigo pode ser um recurso de restauração fundamental, uma vez que pode descortinar, em território de amor e confiança, nossa cegueira para as realidades internas que se tornaram destrutivas para a maturidade espiritual, comportamentos, escolhas diárias e relacionamentos. Um amigo espiritual pode nos aproximar de Deus enquanto aponta nossas tendências de desequilíbrio e caminha fielmente conosco em oração para que cresçamos em fé, esperança e amor.

Em suas observações sobre amizade espiritual, Aelred de Rivaulx destaca que, dentre as características de um amigo espiritual, podemos denominá-lo de “guardião do amor”2. Sob esta perspectiva, temos um papel fundamental e ativo no encorajamento da preservação e o desenvolvimento do amor de nossos amigos por Cristo e pelo próximo. Sempre fundamentados e nutridos por nosso relacionamento com Deus.

Na prática da amizade espiritual, a conversação torna-se vital. Em conversação, praticamos uma escuta e uma fala cuidadosa, aprendemos mais sobre nossa identidade à luz do olhar amoroso de Deus através dos olhos de quem está ali, na nossa frente a nos olhar, amar, confrontar e confortar. Encontramos Graça e perdão na presença do outro. O conceito de prestação de contas é fundamental na prática da amizade espiritual, pois incentiva o diálogo e marca a implementação gradual das percepções de transformações e hábitos que são fruto da ação graciosa do Espírito na vida dos seguidores de Cristo.

Nesta escuta atenta e constante, respeitamos as limitações de quando um amigo não pode tratar de questões específicas, aprendemos sobre o tempo dos processos de Deus, crescemos em fé e desenvolvemos a liberdade de fazer as perguntas que levarão a um processo conjunto de tentar nomear o que até então não enxergávamos sozinhos.

Deus sonda os corações e é capaz de acolher além do que se é capaz de nomear e compartilhar com seu amigo. A dinâmica da oração na amizade espiritual estabelece um sentido importante para essa relação ao incluir Deus como o sustentador central: a compreensão fundamental de que não é um relacionamento destinado apenas ao serviço mútuo, mas em última instância, um meio através do qual crescemos em amor, adoração a Deus e aprendemos a amor ao próximo em nossas diferenças e vulnerabilidades.

E agora? Tire um tempo para pensar na sua própria jornada e naqueles que você escolheu como companhia para caminhada. Priorize seu tempo de compartilhar a vida nos seus processos, não apenas nas urgências. Acolha em amor os alertas que você recebe de seus amigos espirituais, mesmo que isso cause desconforto e até raiva num primeiro momento. “As feridas causadas por alguém que ama fazem bem, mas os beijos do inimigo são mortais” (Pv 27:5) Podemos escolher o caminho perigoso da omissão e ou optarmos pela ação amorosa: abrir espaço confiável para ouvir a confissão do outro, exortá-los em amor e nos comprometermos a orar por eles. E fazer o mesmo, ouvindo nossos amigos espirituais e recebendo seu cuidado, cultivando relacionamentos de afeto que nos acompanharão não apenas nos dias maus, mas nos trarão a possibilidade da sincera alegria compartilhada, que experimentamos na vida abundante presenteada por Deus. Testemunharmos juntos a ação do Pai. Crescermos juntos em fé, esperança e amor.

Notas:
1 – Eugene Peterson. Leap over a wall: earthy spirituality for everyday Christians (Harper Collins, 1997).
2 – Aelred de Rievaulx. Spiritual Friendship. (Cistercian Publications,1974).

• Karen Bomilcar é psicóloga clínica hospitalar, mestre em Teologia e Estudos Interdisciplinares pelo Regent College (Canadá). Atualmente reside em São Paulo (SP) onde serve no discipulado e cuidado pastoral de pessoas de diversas comunidades cristãs. Fonte: Revista Ultimato – edição 22 de julho de 2016

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