DROGAS: “A família do dependente também deve ser envolvida no tratamento”

Como está a sua vida? A pergunta assim, feita de surpresa, pareceu não ter causado impacto no jovem. Para Carlos Roberto Pereira da Silva, aquela era uma das centenas de entrevistas que fez e faz com pessoas interessadas em se tratar no Desafio Jovem nesses 35 anos da entidade.

“Minha vida está boa”, disse o jovem ao diretor executivo da entidade, e exibiu um sorriso meio enviesado. “Acordo todo dia de manhã, faço a mamadeira para minha filha, brinco um pouco com ela, assisto a televisão e minha mulher sai para trabalhar às 18 horas”, continuou o jovem.

Imediatamente, o diretor do Desafio Jovem de Rio Claro percebeu que as coisas não andavam nada bem e que, na verdade, o tal jovem, já casado e pai, não queria enxergar. Aí o impacto de se colocar um espelho para que o dependente de drogas veja a real situação em que se encontra foi necessário. “Então não é o caso de você vir se tratar aqui no Desafio Jovem, sua vida está uma beleza, está tudo bem”, disse. O jovem parecia incomodado com aquela afirmação.

Imediatamente, Carlos Roberto emendou novamente a pergunta, agora num tom mais grave e com alguns complementos a respeito da vida real daquele moço viciado em crack. “Como pode dizer que sua vida está boa, se está desempregado, com duas filhas pequenas, roubando dinheiro da própria mulher, dando mau exemplo às filhas e viciado em crack?”, disse. Não precisou de uma resposta longa para o jovem de fato perceber que tudo ia mal e dizer que estava prestes a perder sua família, por isso procurou o Desafio Jovem para tentar se recuperar.

O caso ilustra o início dos trabalhos para quem procura o Desafio Jovem e é um retrato do que as drogas têm feito com jovens rio-clarenses, que entram cada vez mais cedo no vício, conforme atesta Carlos Roberto, há 33 anos atuando na entidade na difícil tarefa de recuperar dependentes químicos.

Entrevistado pelos jornalistas Ana Ligia Noale, Marcelo Lapola e Janyne Godoy, Carlos Roberto contou sua própria experiência como dependente químico por cerca de 15 anos. “Vim para Rio Claro fugindo da polícia e de bandidos que queriam me matar”. Confira:

Jornal Cidade – Fale um pouco sobre seu trabalho e da diretoria do Desafio Jovem.

Carlos Roberto – O Desafio Jovem é uma comunidade terapêutica que procura atender pessoas que são dependentes de substâncias psicoativas. E o tratamento não é só com o dependente, mas também com a família. Percebemos que a família do dependente químico nomeia um problema comum e fica mais fácil. Algumas querem a cura imediatamente e querem transferir o problema. Nossa proposta é que todos passem por um tratamento.

JC – Há um tempo de duração para o tratamento?

CR – O trabalho é de, no mínimo, 12 meses. Para alguns é preciso mais.

JC – Quantas pessoas hoje estão em recuperação no Desafio Jovem? O atendimento é a partir de que idade?

CR – Em média trabalhamos com 20 internos. Mas já cheguei a trabalhar com mais de 80. Mas isso não era adequado. Mudamos a metodologia. Aplicamos a metodologia do Desafio Jovem Internacional. Há estudos em grupo e interpessoais. Ele é estimulado a achar um tema que seja simpático a ele. Só para homens a partir de 17 anos.

JC – Na sua opinião, o governo está abrindo os olhos para o problema das drogas? Como o senhor vê essa falta de investimento do Poder Público?

CR – A verdade é que não existe uma política de prevenção às drogas no País. Dia desses houve um problema com um jovem que teve um surto de esquizofrenia. Ficamos sabendo que tinha de passar no Caps. Chegamos lá, demoraram uma enormidade para atender, com um monte de dificuldades, pediram inúmeros documentos. Às seis da manhã me pediram para tirar xerox dos documentos dele. Um verdadeiro descaso com a vida humana. Acabamos internando particular no Bezerra de Menezes. Então isso que aconteceu é uma demonstração da falta total de estrutura do Poder Público.

JC – De onde vêm os recursos do Desafio Jovem?

CR – Primeiro posso dizer que é um milagre. Tínhamos que ter 30% de vagas sociais, que são aquelas sem custos. Hoje estamos com 60%. Temos sócios-contribuintes, temos parcerias com algumas empresas, de onde compramos sucatas e revendemos, entre outras fontes. Há empresas que doam material para nós, como papelão, ferro, que acabamos vendendo. Também começamos a receber uma verba de R$ 120 mil da prefeitura.

JC – De que modo o Desafio Jovem atua? É a família ou a própria pessoa que procura vocês? Para quem é o desafio jovem?

CR – Às vezes a família, outras amigos do familiar que têm interesse em ajudá-lo. Nós orientamos como deve ser a abordagem. Há outras situações em que, ao transgredir a lei, o advogado consegue que a pessoa faça um tratamento.

JC – O uso disseminado do crack tem tornado a recuperação mais difícil?

CR – Sim. Qualquer droga que se fume. O efeito dele é muito rápido. A dificuldade maior está na recaída. Quando ele começa a achar que está bem, que entendeu que vai fazer tudo certinho, pensa que já está na hora de sair, quando na realidade ainda não está preparado.

JC – A religião é um caminho para resgatar os jovens das drogas?

CR – Entendemos que a Bíblia e a religião dão um norte à pessoa. Já no início explico como funciona todo o programa. Há leitura da Bíblia, individual e em grupo, livros com conteúdo bíblico. Filmes evangélicos e filmes que não são, mas que têm uma mensagem boa. O ator principal do nosso trabalho se chama Jesus Cristo. Sei que muita gente fala que isso é tirar um vício pelo outro. Fui dependente químico por 15 anos e a melhor coisa que encontrei na minha vida foi Jesus. Deus me devolveu a sanidade.

JC – O que o senhor pensa da proposta de legalização da maconha e descriminalização das drogas?

CR – Sou contra. A maconha é a droga que mais desencadeia a esquizofrenia nas pessoas. O problema é que as pessoas não têm mais valores. Se não há valores, compromisso com Deus, então cada um vai ter sua lei. Como as pessoas não conseguem fazer a coisa certa, como prevenção e repressão, querem adotar modismos como de alguns países da Europa. O mundo não está preparado para isso. A maconha é uma droga hipnótica. Há muitas falsas ideias que tentam passar a respeito da maconha.

JC – Quem quiser fazer doações para o Desafio Jovem, como devem proceder?

CR – Basta nos procurar pessoalmente. Também temos recebido doações pela nossa conta no Banco Santander, em Rio Claro: agência 0059 conta 03130059-4. Tem o site www.desafiojovem.com.br. E ainda o telefone 3534-1999.


Fonte: Jornal da Cidade
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