Qualificando o próximo

“Quem é o meu próximo?”, questiona o mestre da lei (Lc 10.29) a Jesus, que então, conta a parábola do samaritano e devolve ao doutor: “Quem foi o próximo do homem que caiu na mão dos salteadores?”.

De fato, Jesus não devolveu exatamente a pergunta, mas a refez. Da forma como a elaborou, sugeriu que o mestre da lei, em vez de indagar “Quem é o meu próximo?” deveria ter dito “De quem devo ser próximo?”. E a resposta é clara: daquele que você vê que precisa de você.

Essa resposta qualifica o próximo, a quem se deve amar, como o necessitado, o despossuído, o abusado, o explorado; e a única condição prévia para sua qualificação é que ele seja visto. Isso justifica trazer à tona toda a ordem de abuso e desrespeito ao ser humano para que ele possa ser visto e amado, ou seja, socorrido. Este socorro pode vir por meio do impedimento da violência — o que é mais eficaz — ou restaurando-se o indivíduo que a sofreu.

O próximo não é todo mundo, porque todo mundo não é ninguém, O próximo é o necessitado. Jesus, na parábola, também qualifica o que significa “ver” alguém. Aparentemente, todos os protagonistas viram o homem na beira da estrada, porém só um se compadeceu com uma compaixão ativa. Este de fato o viu.

O bispo irlandês Geoge Berkeley disse que “ser é ser percebido”. Nesta parábola, Jesus qualifica que tipo de percepção dá ao observado a qualidade de existir.

O mestre da lei, que a sintetiza em “amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todas as tuas forças e de todo o teu entendimento, ao teu próximo como a ti mesmo (Lc 10.27)”. sugere, ao perguntar apenas sobre o amor pelo próximo, que amar Deus, na intensidade descrita, não era um problema. Sua crise era com o outro. Jesus, por sua vez, traz para a história dois protagonistas similares ao mestre da lei. Pelo entendimento que tinham sobre o significado de amar Deus acima de todas as coisas, é muito provável que eles tivessem passado ao largo do necessitado porque ficariam inviabilizados por cerca de 40 dias, como oficiantes do culto a Deus, se o tivessem tocado e ele estivesse morto, ou viesse a morrer em suas mãos. Há grande possibilidade, portanto, que por amar Deus acima de tudo, aqueles homens não tenham se envolvido com o moribundo, com medo de não poderem participar do serviço de Deus. Jesus, no entanto, põe em xeque este amor por Deus que não vê o próximo.

Nesta história, Jesus também qualifica o ser humano, sobretudo o necessitado, como prioridade máxima. Isso ocorre quando ele menciona que o samaritano, provavelmente um negociante, submeteu sua agenda à necessidade do outro, parando, socorrendo-o, cedendo-lhe o animal e diminuindo drasticamente seu ritmo, tendo ainda lançado mão de seu próprio recurso para tratar do necessitado e se comprometido com a total restauração do mesmo.

Portanto, o desafio que se apresenta ao cristão e à comunidade cristã na parábola do samaritano é o de se aproximar do necessitado.

O próximo está qualificado.

Por: Ariovaldo Ramos – Diretor Geral da Faculdade Latino-Americana de Teologia Integral.

Fonte: Revista Portas Abertas, Vol. 25, Nº 11, 2007 / Portas Abertas: www.portasabertas.org.br

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