Missão de ponta-cabeça da ordem para ir ao convite para vir

Quero me concentrar no que parece ser uma “discrepância” entre o que chamamos de missão e o que a missão é e precisa ser na prática. Continuamos a usar a mesma linguagem dos últimos 50 anos para mobilizar as pessoas para missões transculturais. Porém o contexto e as necessidades mudaram drasticamente.

Que tipo de pessoa estamos procurando, em resposta ao desafio e à oportunidade de missões hoje, e como procuramos motivá-la?

Este artigo aborda a incongruência entre linguagem, motivação e meios para a missão e a realidade que vivenciamos em muitos lugares hoje.

 A ordem para ir

Grande parte do movimento missionário protestante transcultural dos últimos 200 anos tem sido profundamente influenciada por Mateus 28.18-20. William Carey usou este texto como base bíblica do seu chamado missionário em sua conhecida obra.1 Nossa obrigação surgiu diretamente da ordem de nosso Senhor Jesus: “Ide… e fazei discípulos”.

Podemos argumentar, com razão, que a melhor tradução do verbo neste versículo não seria “ide”, mas “indo” ou “enquanto você vai”.2 A ordem neste verso é, de fato, “fazendo discípulos”,3 seguida dos gerúndios explicativos, “batizando e ensinando” “todas as coisas que vos tenho ordenado”.

No entanto, para Carey e para a maioria das gerações posteriores, a ordem principal continua sendo “ide”. E há razões bíblicas e coerentes para isso.

Abraão foi chamado para deixar sua casa e ir para um lugar que Deus lhe mostraria (Hb 11.8). O profeta Isaías ouve a voz do Senhor dizendo: “A quem enviarei, e quem há de ir por nós?” (Is 6.8). Jesus entende seu próprio ministério em termos de ser enviado pelo Pai: “A minha comida consiste em fazer a vontade daquele que me “enviou” e realizar a sua obra” (Jo 4.34).

A ideia de ir, mesmo não expressa no imperativo, é claramente esperada por Jesus em Mateus 28. De que outra forma os discípulos cumpririam a palavra profética de Jesus em Atos 1.8 e seriam suas testemunhas até os confins da terra?

A “ênfase no ir” nas ordens finais de Jesus aos discípulos é um lembrete importante de que a missão precisaria ser muitas vezes um movimento transcultural. O livro de Atos e as epístolas nos mostram repetidamente como o Espírito Santo, como principal estrategista da missão, orquestra o necessário movimento geográfico, emocional, cultural e teológico para que a missão de Deus seja realizada.

O comando para ir é profundamente bíblico. Ele antecipa uma resposta de obediência em fé. A “obediência como motivação” é importante, à medida que destaca valores de submissão, serviço, compromisso, lealdade e disciplina.

Assim, tanto a linguagem de ir/ser enviado como a motivação da obediência são verdades bíblicas que permanecem hoje. No entanto, a linguagem de ir não é a única maneira como a missão é apresentada na Escritura. Considerada isoladamente, fora do todo, ela carrega consigo algumas fraquezas potencialmente graves.

Primeiro, a ênfase em ir tende a colocar o foco sobre a pessoa que vai. Sim, Jesus, em Mateus 28.18, explicitamente emoldura seu comando de fazer discípulos com as palavras: “Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra”. Mas podemos tirar proveito disso para reivindicar autoridade e unção na “nossa missão”. Mesmo sem orgulho consciente, a ordem para ir sutilmente incentiva padrões de pensamento do tipo “a missão depende de nós”. Se não formos, eles não vão ouvir. É tudo sobre nós e nossa obediência.

Além disso, o foco no “nosso ide” se encaixa belamente no contexto de colonização. Missionários chegaram com a certeza não somente do evangelho, mas também da sua cultura como meio para transmiti-lo. Esta atitude continua em um grau significativo, mesmo na era pós-colonial.

Isso também alimenta fortemente os paradigmas prevalecentes da missão, especialmente aqueles com foco em evangelismo e plantação de igrejas. A linguagem de povos não alcançados ilustra isso. Dizem-nos: “Adote um povo”, e ele será alcançado. Nós somos o elemento-chave para que o evangelho alcance determinado grupo, que, de outra forma, continuará perdido.

Minha intenção não é minar uma abordagem da missão que tem sido útil para muitas pessoas. Estou simplesmente dizendo que “ir” como única linguagem para mobilizar e motivar para a missão é algo incompleto — e cada vez mais fora do nosso contexto atual.

Por mais de 200 anos, a mobilização internacional de obreiros transculturais tem sido o grande impulsionador de missões. Nos últimos 50 anos, floresceu a mobilização em massa: quanto mais pessoas mobilizadas, melhor. O imenso crescimento das missões de curto prazo é uma extensão natural dessa filosofia.

O paradigma precisa mudar. O agente primário da missão não pode mais ser a mobilização de obreiros internacionais. Antes, o fator primário precisa ser o fortalecimento das igrejas nacionais para que elas tomem a responsabilidade da missão localmente.

O contexto da igreja

Pensemos um pouco mais sobre nossa realidade atual em termos de missão transcultural. Eu reconheço que o meu foco aqui é a Ásia e o mundo árabe.

Deus tem usado formas notáveis para promover o crescimento da sua igreja. Grande parte desse crescimento tem sido sólido, pois os esforços de evangelismo seguido de discipulado têm dado frutos.

Os contornos do cristianismo mundial mudaram. Cinquenta anos atrás, na maior parte da América Latina, África e Ásia, a igreja evangélica era pequena ou nem existia.4 Talvez ainda mais notável seja o crescimento da igreja nos lugares mais difíceis: Norte da África, partes do mundo árabe, Irã, Ásia Central, Sul da Ásia, Mongólia e China. Hoje existem grupos de discípulos em todos os países.

O impacto dessa realidade é enorme para o mundo da missão! Contudo, o discurso de mobilização continua a ser o mesmo. Não muito tempo atrás, visitei um jovem casal. Eles compartilharam sobre o seu chamado para trabalharem em uma determinada cidade no Paquistão. Planejavam ir para plantar igrejas. Eu pedi que me informassem a data de partida, pois iria colocá-los em contato com alguns cristãos daquela cidade. Mencionar isso causou-lhes grande surpresa.

Mas posso compreendê-los. Afinal, em 1990, quando minha esposa e eu fomos para a Tunísia, havia somente dez cristãos conhecidos em uma população de mais de 8 milhões de pessoas. E isso depois de 100 anos de atuação missionária ininterrupta. Dois anos depois, recebemos a visita de uma das grandes modeladoras da nossa missão, Vivienne Stacey: “Paul, a igreja na Tunísia vai crescer pelo labor dos tunisianos”. Fiquei tão surpreso quanto aquele casal! Por anos, eu havia pensado que era para isso que estávamos ali. Não era este o chamado que eu ouvira de Deus, de trabalhar em um país onde missionários não podem entrar?

Vivienne não estava dizendo que não há lugar para estrangeiros se envolverem em evangelismo e plantação de igrejas. Ela estava simplesmente destacando que o crescimento mais efetivo e sustentável da igreja aconteceria quando cristãos tunisianos se levantassem e assumissem a responsabilidade por isso. Em geral, “o melhor povo para alcançar um povo é o seu próprio povo”.

Vou tentar ser claro sobre o que eu “não” estou querendo dizer. Temos um problema: geralmente falamos sobre a igreja da Tunísia, a igreja brasileira, a igreja indiana. Esta é uma linguagem perigosa. Alimenta a impressão de que a igreja na Tunísia pertence aos tunisianos e eles têm o direito de conduzi-la da maneira como acharem melhor, que devem ditar quem faz o quê. Missão sempre acontece em um contexto. Na missão pós-colonial, temos reagido aos erros da missão colonial com um erro igualmente grave. No lugar de os missionários serem “os donos” da igreja, agora falamos de “propriedade nacional”. Saltamos de um erro a outro. Há apenas um proprietário da igreja: Jesus Cristo, nosso Senhor. Seria melhor falarmos da igreja na Tunísia, igreja no Brasil, e assim por diante.

Toda a missão é “Missio Dei”. Não é propriedade de locais, nacionais ou transnacionais. Ela flui do coração de Deus, autorizada pelo Filho e possibilitada pelo poder do Espírito.

Quando falamos do papel vital da igreja nacional em missão, estamos enfatizando a importância dos papéis apropriados e quem está mais bem posicionado para fazer a obra. Nada deve destruir nossa unidade em Cristo.

Não se trata de apelar por uma moratória no envio de missionários, tampouco sugerir que a missão deve ser controlada e dirigida exclusivamente por nacionais. O que estamos afirmando é que, em nosso contexto atual, a igreja local existe e é o principal instrumento para a missão.

Porém você dirá: “Há literalmente incontáveis milhares de comunidades em toda a Ásia, Oriente Médio e Norte da África sem testemunha visível de Cristo”. Você tem razão. Apesar da realidade da igreja em todos esses países, um vasto número de pessoas vive em comunidades sem esperança alguma de ver, ouvir e experimentar o amor transformador de Cristo.

Em tais circunstâncias, compreendo por que as pessoas creem que a resposta está na estratégia histórica de mobilização de fiéis das igrejas dos países ricos e afluentes, com recursos e experiência em missão. Além disso, os cristãos nacionais podem acreditar que os internacionais estão mais bem colocados para alcançar essas comunidades sem testemunho de Cristo. Há várias razões para isso:

A missão transcultural modelou a ideia de que missão é “responsabilidade” de estrangeiros;

Os cristãos nacionais podem pensar que é “mais fácil” para os internacionais trabalharem com pessoas de fora da comunidade cristã;

Eles podem relutar em alcançar outras comunidades por causa do “custo potencial” em termos de posição social, emprego, segurança e até mesmo da própria vida;

A igreja nacional pode estar presa ao “etnocentrismo” ou a uma “mentalidade de gueto”, fruto de anos vivendo como uma minoria oprimida.

Mesmo que estas sejam razões compreensíveis, nossos irmãos locais estão errados e devemos graciosamente, com amor e oração, sem julgamento, desafiar tais posições e modelar algo diferente.

Enquanto a igreja cresce rapidamente em certos contextos, o oposto acontece em lugares onde predominam o islamismo, o hinduísmo e o budismo. Podemos deduzir que o movimento missionário dependente da mobilização de obreiros internacionais levou a igreja nestes contextos a ser percebida como uma religião, em grande medida, estrangeira. A superação deste obstáculo tem de incluir o fortalecimento5 da igreja nacional quanto à missão.

Como a comunidade missionária internacional vai se mover nessa direção? Parte da resposta está no desenvolvimento de uma linguagem de missão mais rica do que simplesmente a ordem para ir.

O convite para vir

Acredito que é tempo de substituir a ênfase da missão internacional na ordem para “ir” pelo convite para “vir”. O convite para vir precede o comando para ir. Em primeiro lugar, o convite para vir é o convite do discipulado. Antes de Jesus enviar seus discípulos à missão, ele os convidou para se juntarem a ele. Nosso chamado para ir a ele como discípulos e nosso chamado para fazer discípulos são indissoluvelmente ligados: ““Vinde” após mim, e eu vos farei pescadores de homens” (Mt 4.19).

Pode parecer óbvio que antes de podermos “fazer” discípulos nós precisamos “ser” discípulos. Contudo, não se trata simplesmente de um estado ontológico, uma questão de ter tomado uma decisão em um dado momento e pronto. Ser discípulo é um estado ativo de aprendizado e crescimento. O fato de o convite para vir preceder a ordem para ir é um lembrete de que o ministério flui da intimidade.

Da mesma forma, os Evangelhos nos lembram que o ministério flui do chamado e da unção. Os discípulos devem ir a todas as nações, mas antes o Espírito Santo precisa vir sobre eles (Lc 24.45-49).

Assim que os discípulos saem em missão, uma nova experiência ocorre em Atos 16.6-9. Paulo revisitou e encorajou as igrejas estabelecidas em sua primeira viagem. Ele agora espera avançar. A direção mais clara é continuar indo para o oeste, na província da Ásia. Porém o Espírito Santo o impede e, em seguida, bloqueia também sua ida a Bitínia.

Depois de duas tentativas de ir a uma nova região, Paulo recebe o convite para “vir”. Há dois elementos-chaves que podemos apreender disso.

Primeiro, o convite é feito por Deus. Paulo vê um homem convidando-o. Quando alcança a Macedônia, ele não se encontra com um homem, mas com uma mulher — Lídia. Sua visão não era outra senão o Senhor o convidando para vir e juntar-se a ele na obra que já estava fazendo. Quaisquer que tenham sido as razões por que o Espírito Santo bloqueou os esforços anteriores de Paulo para iniciar novo trabalho, parece claro que Deus queria ressaltar algo para ele: “Eu estou trabalhando e convido você para se juntar a mim!”

Jesus é o modelo deste entendimento da missão, quando afirma: “O Filho nada pode fazer de si mesmo, senão somente aquilo que vir fazer o Pai” (Jo 5.19).

Mais tarde, Jesus diz aos discípulos: “Assim como o Pai me enviou, eu também vos envio” (Jo 20.21). Isso serve de lembrete de que, exatamente como Jesus se juntou ao Pai em sua missão, somos enviados para nos juntarmos ao Pai naquilo que ele está fazendo.

Toda a missão é missão de Deus. Foi ele quem a concebeu, planejou e pagou por ela. É ele quem a orquestra e quem derrama seu Espírito de poder para sua execução. Quando vivemos em resposta ao convite para vir somos libertos da tirania da nossa necessidade de sucesso mensurável, velocidade e soluções pragmáticas. Esta mensagem é um antídoto extremamente necessário para uma missiologia que parece implicar que nós somos os agentes críticos da missão.

A segunda lição é que Deus nos convida a nos juntarmos não apenas a ele, mas também ao seu povo, à igreja local, que já “está na área”. Paulo foi de fato pioneiro, focando seus esforços nos lugares em que não havia igreja. Hoje tais contextos são muito raros — Aleluia! A igreja está presente ou próxima de nascer e a ela devemos nos juntar.

O convite para vir modifica, de forma crítica, a mensagem e a motivação da mobilização. Coloca-nos de uma vez por todas na posição de ouvinte, de servo e de colega de trabalho. A ênfase se desloca para minha contribuição no contexto de uma equipe, em primeiro lugar com Deus e, então, com o povo de Deus.

Consequências práticas

Uma mudança na mobilização missionária da ordem para ir para o convite para vir resultará em um número de consequências práticas.

“Diferente ênfase na mobilização”

Há muito trabalho a fazer em missão transcultural. O obreiro internacional do futuro verá a igreja local e seu povo como os principais agentes de missão e transformação em seu próprio país. Este foi o cerne do modelo apostólico em Atos. Igrejas foram estabelecidas e, em seguida, a liderança local foi habilitada, nutrida e ensinada a espalhar o evangelho em seu contexto. Repito, a missão internacional deve responder à ação de Deus e reconhecer a presença da igreja local. Chega de nos comportarmos como se ainda vivêssemos nos anos 50, ou mesmo 90!

“Mobilização daqueles com atitudes e práticas apropriadas”

Missão, em resposta ao convite para vir, apela por um conjunto específico de atitudes e habilidades. Exige humildade e serviço. O obreiro internacional verá seus dons e ministérios como uma oportunidade de edificar e capacitar outros. Ele perguntará sempre: “Como este ministério vai capacitar6 a igreja local para a missão?”.

Ele desenvolverá os papéis de amizade, ser modelo de vida e ministério, tutoria, capacitação e copioneirismo.

Recrutamento e preparo terão de ser focados em atrair e estimular obreiros que encarnem esses papéis. A cultura organizacional das agências e o cuidado integral do missionário serão alinhados para reforçar atitudes e habilidades apropriadas.

“Maior integridade e conectividade entre o que dizemos para as igrejas e para os candidatos sobre a missão e a realidade hoje”

Quando usarmos a linguagem do convite e a vivenciarmos, a diferença entre o que dizemos sobre a missão e a realidade do campo diminuirá. Esta é uma necessidade vital. Há ainda uma grande necessidade do tipo certo de obreiros transculturais. Se não mobilizamos com integridade, desonramos o Senhor da missão e corremos o risco de alienar a igreja — tanto em seu papel enviador como recebedor.

Deus está edificando sua igreja. Ela pode ser frágil. Pode ainda nem existir em alguns lugares. Porém o esforço missionário internacional precisa fazer muito mais para reconhecer, servir e capacitar esta igreja.

Notas

 1. “Enquiry into the Obligations of Christians to use Means for the Conversion of the Heathens”.

2. Aoristo [contínuo], particípio passado.

3. Ordem contínua, ativa.

4. Estamos tão familiarizados com os números de crescimento, que podemos cair no perigo de aumentá-los ou, antes, descartá-los, considerando-os movimentos essencialmente populistas, sem substância.

5. Ou “empoderamento”.

6. Ou “empoderar”, uma palavra recente, mais abrangente que “capacitar”.

 

Traduzido por Délnia Bastos.

 

Paul Bendor-Samuel é diretor internacional da Interserve, agência missionária que serve na Ásia e no mundo árabe — http://www.interserve.org 

 
Fonte: Revista Ultimato
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