A Palavra Escrita e Missões

Há crescentes controvérsias no mundo evangélico sobre a validade das Escrituras – a Palavra de Deus escrita. A importância disso para a vida e o avanço missionário é crucial. Se o missionário duvidar da validade da Bíblia, não tem como cumprir plenamente o mandato de Jesus em “ensinar a guardar tudo que Ele ordenou” (Mt 28.18-20). O problema maior entre os evangélicos não é o liberalismo que dedara que a Bíblia não foi inspirada, que não é a verdade, ou que é apenas um livro com ensinos bonitos, mas cheio de erros e contradições. Os liberais teológicos crêem que a Bíblia contém escritos feitos por pessoas desconhecidas, pessoas que eram até bem intencionadas, mas apenas contadoras de histórias. Não eram portadores da verdade infalível dada por Deus. Eram “inspirados” como qualquer escritor, tipo Machado de Assis ou José Alencar.

Estas declarações não nos atraem muito, pois cremos, em teoria (digo em teoria, porque muitas vezes não colocamos em ação), na veracidade e inspiração da Bíblia. O nosso problema é mais sutil, apesar de estar também pelo menos um pouco influenciado pelo liberalismo; é que entre alguns evangélicos existe um ensinamento de que a Bíblia foi escrita por pessoas que registraram testemunhos de atos de Deus nas suas vidas ou nas vidas dos outros, sendo um registro de experiências espirituais na percepção pessoal de cada escritor. O resultado é um grupo de comentaristas que nunca dizem “Jesus falou isto ou aquilo”, mas põem o autor no meio – “Mateus disse que Jesus falou”: o autor achou/lembrou/ouviu dizer algo que Jesus falou. Jesus não é necessariamente quem falou isto ou aquilo. E para entender a Bíblia é preciso entender primeiro a história, o estado emocional e o contexto do autor, as influências que determinaram o conteúdo de cada texto.

O resultado disso é que, para esta linha de pensamento, o texto bíblico é limitado. Não é uma revelação de Deus, mas um relato de uma experiência pessoal com Deus. Para eles, Jesus é a única Palavra (com certeza) de confiança. E Ele, e só Ele, a verdadeira revelação de Deus. Então crêem que, como Ele se relacionou com Seus discípulos e com outros, nós podemos também nos relacionar com Ele diretamente, independente de qualquer outra revelação.

Frente a estas colocações, temos que fazer pelo menos duas perguntas: Como foi que o próprio Jesus encarou a Palavra escrita e como vou conhecer algo sobre Jesus, ou conhecer o próprio Jesus, se não através das informações confiáveis e escritas?

Começando com Moisés, podemos ver como foi importante escrever as verdades e a história de Deus e do povo, e não apenas falar, algo que o próprio Jesus reforçou constantemente. Deus foi o primeiro a escrever, como devemos lembrar. Ele gravou por duas vezes nas tábuas de pedra os Seus Mandamentos, tão vitais para o bem estar dos israelitas (Ex 20; 32.15-16; 34.1; Dt 5.22-33). O povo tinha que decorar, repetir, pôr em prática fielmente tudo o que Deus quis. Tinha que escrever nos umbrais das portas, colocar pendurado no corpo e sempre ter por perto. O Escrito aponta fielmente para Deus e Sua vontade, mas não é Deus. O louvor é para Deus, mas o Escrito é essencial para a obediência e compreensão de quem é Deus e o que Ele quer (Dt 7:9). O povo nunca fez uma separação entre Deus e Sua vontade, que Ele deixou escrita. Louvar o verdadeiro e único Deus era obedecê-lO. Há muitos textos no Antigo Testamento que mostram a reverência e submissão dadas à Palavra de Deus registrada (Verificar alguns exemplos como Js 1.8; 8.31, 34; 23.6; 1 Rs 23; 2 Rs 14.6; 22.13; 2 Cr 34.21; Es 3.2; Ne 8.14-15; Dn 9,13).

Jesus sempre tratou as Escrituras (o Antigo Testamento) como totalmente verídicas. Nenhum til poderia passar, tinha que se cumprir (aconteceu com a Sua vinda, morte e ressurreição e a formação da Igreja gentílica), e era a verdade. Na tentação de Jesus, Ele rebate satanás dizendo: Esta escrito! (Lc 4:4, 8, 12). Há muitos lugares nos Evangelhos do Novo Testamento onde Jesus tratou a Lei como absolutamente verdadeira (Comparar Mt 11.10; 21.13; 26.24, 31; Mc 7.6; 9.12; Lc 18.31; 19.46; 22.37; 24.44- 46 e Jo 12.14).

Apesar de a Lei ser absoluta e ser seguida pelo povo à risca, foi completada em Jesus, e deve ser mais que cumprida da na vida dos Seus discípulos. Jesus disse: Não penseis que vim revogara lei ou os profetas; não vim para revogar, vim para cumprir. Porque em verdade ide vos digo: até que o céu e a terra passem, nem um i ou um til jamais passará da lei, até que tudo se cumpra. (…) Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder em muito a dos escribas e fariseus, jamais entrareis no reino de Deus. Ouvistes que foi dito aos antigos: não matarás; e: Quem matar estará sujeito a julgamento. Eu, porém, vos digo que todo aquele que [sem motivo] se irar contra seu irmão estará sujeito a julgamento; (Mt 5.17-22).

Não era apenas se recusar a matar o inimigo, não podiam guardar mágoa e tinham que ter amor por ele. Mais tarde entendemos que a Lei teve seu papel em mostrar que ninguém era capaz de segui-la e que precisava do perdão de um Salvador (Rm 3.20; 5.20; 7.7; Gl 3.19-24). Os apóstolos aprenderam do próprio Jesus a importância da Palavra escrita. Ele frequentemente relacionava Seu ensino à Palavra, ou chamando atenção dos Fariseus e Escribas, que se achavam mestres da Palavra, mas erravam muito, ou mostrando os propósitos da Palavra.

Estes apóstolos gastaram seu tempo ensinando a Palavra em Jerusalém (At 2.42), onde pessoas como Barnabé aprenderam. Os novos convertidos e os discípulos levaram a Palavra junto aonde foram, como, por exemplo, Barnabé para Antioquia onde ensinou por pelo menos um ano, incluindo seu amigo Saulo, profundo conhecedor da Palavra. Os dois foram enviados por Deus para continuar o processo em outras terras não alcançadas, ensinando dia e foice (At 20) para aqueles que um dia ensinariam a outros (2 Tm 2:2). Paulo escreveu em Romanos 15:4: “Pois tudo quanto, outrora, foi escrito para o nosso ensina, foi escrito a fim de que, pela paciência e pela consolação das Escrituras, tenhamos esperança”. Em 1 Corintios 15.1-4 ele de novo escreveu: “Irmãos, venho lembrar-vos o Evangelho que vos preguei, o qual recebestes e no qual ainda perseverais. Por ele também sois salvos se retiverdes a Palavra tal como vo-la preguei, a menos que tenhais crido em vão. Antes de tudo vos entreguei o que também recebi: que Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras; e que foi sepultado, e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras”.

Para Pedro, João, Judas, o autor da carta aos Hebreus, Paulo e Lucas, a Palavra era inspirada por Deus (At 1:1 f; 2 Pe 1:21), e foi dada a homens que nem entendiam tudo que estavam falando (1 Pe 1:10-12). Isto nos mostra que era uma revelação de Deus, e não apenas um testemunho “necessário para a salvação”. Paulo escreveu para Timóteo: Tu, porém, permanece naquilo que aprendeste e de que foste inteirado, sabendo de quem o aprendeste. E que, desde a infância, sabes as sagradas letras, que podem tomar-te sábio para a salvação pela fé em Cristo Jesus. Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra (2 Tm3:14-17).

A Palavra é “viva e eficaz”, escreveu o autor da carta aos Hebreus: “Porque a palavra de Deus é viva e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até ao ponto de dividir alma e espírito, juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e propósitos do coração” (Hb 4.12). É interessante que antes de Paulo e Pedro morrerem, este inclui os escritos de Paulo como “Escrituras”, no mesmo nível dos escritos do Antigo Testamento. Mesmo que, às vezes seja um pouco difícil de entender, era inspirada por Deus, infalível, como eles acreditavam serem as Escrituras. Além do trato absoluto de Jesus e os Seus discípulos em relação à Palavra escrita, temos que reconhecer o “pequeno” fato de que não podemos saber nada de Deus ou de Jesus sem a Palavra escrita. Jesus é a revelação perfeita de Deus, mas como vou saber desta revelação sem ter aonde aprender sobre ela? Conheço Jesus em primeiro lugar porque alguém falou sobre Ele, passando informações que vêm da Palavra. Depois, minha fé e meu conhecimento se aprofundam com o estudo da Palavra de Deus. Graças Deus, Ele deixou o registro de tudo para que possamos geração após geração, conhecer a Sua vida, Seu caráter, Seus feitos, Sua vontade e Seus propósitos. Nossa experiência com Deus é objetiva e subjetiva, relacionamento baseado na verdade documentada.

Os missionários de hoje têm que ter as mesmas convicções, para poder integrar neste processo dc levar a Palavra às nações, fazendo discípulos verdadeiros dc Jesus Cristo.

Por: Barbara H. Burns — Doutora em missões – Diretora da Escola de Missões Transculturais da Juvep. Professora e Palestrante.

Fonte: Revista TODOS NÓS

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