O povo de Deus é povo missionário (parte 2)

Na primeira parte deste artigo, introduzimos um pouco do ministério do profeta Isaías e falamos da missão que Deus deu a ele. Com esse contexto em mente, podemos destacar três aspectos missiológicos no ministério do profeta. Nessa semana vamos falar do segundo e terceiro aspecto.

A missão foi comissionada ao povo de Deus 

Foi por decisão divina que a nação de Israel foi feita povo missionário de Deus e, posteriormente, a responsabilidade e privilégio recaiu sobre a igreja (I Pe 2.9-19). Essa verdade revelada nos leva a indagar: qual a missão desse povo escolhido por Deus? Não é difícil responder que a adoração vem em primeiríssimo lugar. Por adoração devemos entender uma vida pessoal dedicada a Deus, obediente aos mandamentos revelados na Bíblia (Jo 14.21) e a expressão cúltica comunitária daqueles que participam da mesma fidelidade ao Senhor. Uma vida inteira voltada para adorar e não apenas momentos de adoração coletiva em alguns dias. Isso aponta para a proposta de Gerard von Groningen que, diferente da maioria dos teólogos sistemáticos, defende a ideia que Deus fez apenas um pacto com a humanidade. Para von Groningen este pacto é chamado “o pacto da Criação”, assim expresso: “criarei um povo que seja o meu povo e eu serei o seu Deus”. O profeta Isaías, 700 anos antes da vinda de Jesus, profetizou acerca dessa responsabilidade missionária. O Deus único e verdadeiro estava anunciando antecipadamente através daquele profeta a nova aliança que Ele estava para fazer com o seu povo (Is 42.6).

A nova aliança seria o cumprimento do que já fora prometido acerca da salvação, mas também traria uma nova responsabilidade para o povo através de Jesus: “Eu [Deus] o enviei como garantia da aliança que farei com o meu povo, como a luz da salvação que darei aos outros povos” (Is 42.6). Observe que a salvação trazida ao povo de Deus pelo Messias tem como objetivo levar a salvação aos outros povos.

Aqui reside o centro da missão da igreja, o povo escolhido de Deus. Os missionários de Deus no mundo são as pessoas que já foram transformadas pela graça de Cristo. Esta verdade bíblica põe por terra a ideia errada e tão difundida em nossas igrejas que missionários são apenas aqueles que foram vocacionadas para levar o evangelho a povos em lugares distantes. Destaco também que levar o evangelho não deve ser entendido apenas como o anúncio da mensagem de esperança e fé em Jesus, mas também a chegada dos valores do evangelho. Sem deixar de reconhecer o anúncio do evangelho como a melhor e mais importante notícia para o ser humano, mas também sem desprezar as boas obras, trago a excelente definição do missiólogo David Bosch acerca da missão do povo de Deus: “Missões é o povo de Deus vivendo o evangelho em palavras e ações, quebrando barreiras em direção da não-fé e da não-igreja”.

A missão de anunciar a glória de Deus

Além de anunciar que Deus, através de Jesus Cristo, providenciou a salvação da desgraça gerada pelo pecado, a missão do povo de Deus implica em mostrar a grandeza gloriosa, magnífica e única de Deus, o Criador e Senhor de tudo e todos. O profeta Isaías, ao perceber a grandiosidade da obra missionária do Messias, bradou: “Que o Senhor Deus seja louvado, e que a sua glória seja anunciada no mundo inteiro!” (Is 42.12).

Anunciar a glória de Deus significa falar, divulgar, difundir e mostrar as maravilhas, a beleza singular, o saber infinito e os poderosos feitos de Deus, o único e verdadeiro Deus (Sl 19.1). As pessoas que não conhecem essa verdade não podem adorar a Deus pelo que Ele é e fez. Logo, se faz necessário e urgente que o povo conhecedor da glória divina seja o divulgador de tão preciosa e importante mensagem e grandiosas ações. O povo de Israel era o foco das ações maravilhosas de Deus, ações que deveriam servir como amostra do que Deus faz pelo seu povo. De forma bastante clara, a nação de Israel deveria ser uma espécie de nação show-room, uma vitrine aos demais povos do que realmente seria um povo governado por Deus na sua integralidade.

Os escritos do Novo Testamento fazem a mesma proposta missionária para a igreja. Jesus ordenou: “vão a todos os povos do mundo e façam com que sejam meus seguidores, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a obedecer a tudo o que tenho ordenado a vocês.” (Mt 28.19-20). A diferença entre o povo de Israel e a igreja é que a igreja não é mais uma “vitrine fixa”, imóvel, que espera que os de fora venham e se aproximem para observar.

A igreja deve ser vista como “mostruário ambulante” da glória de Deus, comunidade que deve ir ao encontro da não-igreja. Pela própria etimologia da palavra “igreja”, ela é uma comunidade “chamada para fora”. O povo missionário de Deus não tem a missão voltada para si mesmo, mas para o mundo. Acredito que devemos repetir as mesmas palavras que o profeta Isaías proferiu e nos prontificarmos e moldarmo-nos como servos dessa missão: “Cantem ao Senhor uma nova canção! Que ele seja louvado no mundo inteiro, pelos que navegam nos mares, pelas criaturas que vivem nas águas do mar e pelos povos de todas as nações distantes!” (Is 42.10).

A missão da igreja de Jesus nasceu no coração do Deus ao qual servimos e adoramos com nossas vidas. A glória de Deus já pode ser experimentada pelo seu povo. O serviço a Deus não é penoso ou resultado de pura obrigação sem prazer (Sl 1.1-2). Servir ao Senhor Deus é fator produtor de alegria. Anunciar às pessoas as maravilhas do nosso Deus é privilégio muito recompensador.

Sabemos que essas afirmações são verdades bíblicas. Entretanto, paira sobre nós as seguintes indagações: “se a igreja é o povo missionário de Deus, por que não encontramos comunidades cristãs cheias de missionários eufóricos e empolgados na divulgação da salvação em Jesus Cristo?”, “por que não presenciamos milhões de cristãos entusiasmados em falar a muitas pessoas os grandes feitos de Deus?”. Creio que se faz necessário refletir os primeiros discursos do profeta Isaías acerca da relação do povo com Deus. É urgente e imperioso que o povo missionário de Deus volte a ser o povo responsável com que as pessoas não usem o nome de Jesus apenas como mera saudação, ou se referenciem a Deus apenas como um hospital. Para tanto, necessitamos estar, de palavras e coração, agradando a Deus com vida e falando dele com a boca e as obras.

A mensagem missionária do profeta Isaías é pertinente e atual para a igreja, o povo missionário responsável por levar as boas novas da salvação, vitrine que mostra ao mundo todas as delícias, maravilhas e bênçãos de se conhecer e adorar ao único e verdadeiro Deus.

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Sérgio Paulo Ribeiro Lyra é pastor e coordenador do Consórcio Presbiteriano para Ações Missionárias no Interior. Autor do livro “Cidades para a Glória de Deus” (Visão Mundial). É missiólogo e professor do Seminário Presbiteriano em Recife (PE).

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