O povo de Deus é povo missionário (parte 1)

Isaias atuou como pregador da mensagem de Deus em uma época de grande prosperidade e tranquilidade na nação de Israel. O reinado de Uzias e do seu filho Jotão trouxeram estabilidade política e progresso por mais de 50 anos. Entretanto, esse período de abundância levou o povo a uma vida de ritualismos e formalismos religiosos (Is 1). O povo sabia da existência de Deus e praticava os cerimoniais estabelecidos rotineiramente no templo, entretanto, a vida não refletia obediência aos mandamentos do Senhor. Tal situação produziu um contexto de aparente fidelidade na adoração, todavia, o que exteriormente era demonstrado com a boca não refletia a realidade do coração (Is 29.13).
A missão que Deus deu ao profeta Isaías foi a de denunciar o ritualismo e o estilo de vida pecaminoso que povo praticava associado à hipocrisia de práticas cerimoniais. Além disso, Isaías anunciou a vinda do Messias como evento certo e inadiável e que esse Messias traria solução definitiva para a condenação do pecador (IS 9 e 53), mas isso exigia do povo santidade, “endireitar os caminhos” (Is 40.3). Deus também ordenou ao profeta dizer ao povo que havia uma responsabilidade missionária. Israel fora uma nação escolhida para ser sacerdotal (Ex 19.6), o que significava que as demais nações deveriam conhecer o ser através da mediação dos israelitas. Isaias pregava que o povo de Deus deveria ser luz para as nações e anunciar a vinda do Messias (Is 2.3-4; 40.9; 60.1-3). Além disso, a responsabilidade missionária que Deus deu ao profeta Isaías tomou proporções transculturais, pois ultrapassou as fronteiras nacionais para diversas nações: Babilônia (Is 13, 21, 46), Moabe (Is 15), Síria (Is 17), Etiópia e Egito (Is 18-20).

Nesse contexto, não acredito ser improvável que o profeta Isaías tenha se questionado quanto à efetividade de sua chamada missionária ao povo. Afinal, como implementar a missão quando o povo de Deus não vive de acordo com o que diz acreditar? Como ser povo de Deus e não ser povo missionário? Essas questões são bem pertinentes a Igreja do século 21. Johannes Blawn, em seu livro A Natureza Missionária da Igreja, destaca que igreja missionária é “aquela onde os seus membros buscam agradar a Deus agindo de acordo com a Sua santa vontade revelada nas Escrituras e anunciando a salvação pela fé em Cristo, o Messias”. Acredito que a principal ação missionária da igreja para que Deus seja adorado por todos é esta: viver como povo que é santo e que “proclama as virtudes daquele o tirou das trevas para a sua maravilhosa luz” (I Pe 2.10).

Com esse contexto em mente, podemos destacar no ministério do profeta Isaias três aspectos missiológicos. Nessa semana vamos nos ater ao primeiro deles. Na semana que vem os dois últimos aspectos.

1. A missão nasceu no coração de Deus

Missio Dei é uma expressão que significa “Missão de Deus”. Não apenas nos escritos de Isaías, mas na Bíblia toda Deus é conhecido como o “Deus Criador, Senhor e Soberano sobre tudo e todos, cujos desígnios jamais podem ser frustrados”. Isto nos ensina que o erro humano jamais será capaz de impedir o que Deus determinou. Por esta razão, o apóstolo Paulo afirmou que a obra de restaurar a desgraça causada pelo pecado foi projetada por Deus na eternidade (Ef 1.3).

O pastor da igreja reformada holandesa do século 16, Gisberto Voetius, declarou que “Deus é o Senhor soberano das missões”. Assim, se a missão é de Deus, atingir o objetivo proposto é garantia plena. Deus é sempre autor de obras acabadas. Tudo o que Ele determinou na sua Palavra já aconteceu ou certamente irá acontecer.

O início da ação missionária de anunciar a mensagem e salvar o pecador pela fé parte do coração do próprio Deus, o qual ordenou profetizar acerca do Messias e no tempo escolhido enviou o seu Filho Jesus (Is 53). Este, por sua vez, rogou ao Pai que enviasse o seu Espírito, e é o Espírito Santo que hoje chama, regenera, santifica e capacita a igreja para enviá-la ao mundo com uma missão.

A missão na qual Isaías esteve envolvido é a mesma missão na qual hoje estamos envolvidos. É Missio Dei. Logo, pelo menos cinco implicações surgem de imediato:

Ela não pode ser abortada – Trata-se do plano divino traçado na eternidade e trazido à execução no tempo pleno e perfeito de Deus.

É Deus quem chama e capacita – Todo plano de salvação do ser humano pecador surgiu do coração de Deus. Tendo Ele enviado seu Filho ao mundo, através de sua obra, escolheu homens e mulheres que a Ele vêem através da chamada do Espírito Santo, e são então justificados, regenerados, convertidos e santificados para receberem parte na missão e gozarem eternamente do Seu Reino (Is 6.1-6).

A soberania divina é que determina os resultados – Ao contrário do que muitos pensam, o resultado das missões não pode ser medido apenas por números ou estratégias missionárias, ou ainda atribuído apenas ao esforço e trabalho dos missionários. Se a missão é Missio Dei é o cristão quem planta a divina semente, mas quem a faz germinar e crescer é Deus. Existe a responsabilidade humana de todo cristão ir e pregar, e a do não cristão que ouve de crer. Mas é sempre Deus que fará a semente do evangelho nascer, crescer e produzir frutos.

Implica em devoção e sacrifício – Isto nos leva ao paradoxo que existe entre a soberania divina e a responsabilidade humana. Ações particulares da missão de Deus foram por Ele confiadas aos seus servos e servas. Ao sermos por Ele capacitados e termos recebido a comissão (Mt 28:18; At 1:8), de cada crente é esperado fidelidade, presteza, dedicação, devoção e decisão de pagar o preço para cumpri-la. Ser participante da missão de Deus é uma tarefa que vale a pena viver e morrer por ela.

O povo de Deus é a sua única agência missionária – A estreita relação de ser povo de Deus e ser enviado por Jesus nos moldes de sua própria missão (Jo 17:18) é vista como insubstituível, pois não existe nenhuma outra igreja senão a Igreja enviada ao mundo e não há outra missão a não ser a da Igreja de Cristo.

É importante saber que Deus é aquele que estabeleceu para si mesmo a missão de criar todas as coisas e também criar seres que o adorem (IS 42.4-5). Jamais foi vontade do Criador que os seres humanos se tornassem desobedientes e rebeldes para com Ele e deixassem de adorá-lo.

» Leia a segunda parte do artigo.

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Sérgio Paulo Ribeiro Lyra é pastor e coordenador do Consórcio Presbiteriano para Ações Missionárias no Interior. Autor do livro “Cidades para a Glória de Deus” (Visão Mundial). É missiólogo e professor do Seminário Presbiteriano em Recife (PE).

 

Fonte: Revista Ultimato

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